Com amor, todo sonho é possível

Mulher da Vida


Poema de Cora Coralina
Contribuição para o Ano
Internacional da Mulher, 1975

Mulher da Vida,
Minha irmã.

De todos os tempos
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos, apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.

Mulher da Vida,
Minha irmã.

Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.

Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas.
Escorchadas. Discriminadas.
Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como a erva cativa dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.

Flor sombria, sementeira espinhal gerada nos viveiros da miséria,
da pobreza e do abandono, enraizada em todos os quadrantes da Terra.

Um dia, numa cidade longínqua, essa mulher corria perseguida pelos homens
que a tinham maculado. Aflita, ouvindo o tropel dos perseguidores
e o sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.

A Justiça estendeu sua destra poderosa e lançou o repto milenar:
"Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra".

As pedras caíram e os cobradores deram as costas.

O Justo falou então a palavra de equidade:
"Ninguém te condenou, mulher ... nem eu te condeno".

A Justiça pesou a falta pelo peso do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada, ela é a muralha que há milênios detém as urgências brutais do homem
para que na sociedade possam coexistir a inocência, a castidade e a virtude.

Na fragilidade de sua carne maculada esbarra a exigência impiedosa do macho.
Sem cobertura de leis e sem proteção legal, ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada, nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher, que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.

Mulher da Vida,
Minha irmã.

No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça do Grande Juiz.
Serás remida e lavada de toda a condenação.

E o juiz da Grande Justiça
a vestirá de branco
em novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida
humilhada e sacrificada
para que a Família Humana
possa subsistir sempre,
estrutura sólida e indestrutível
da sociedade,
de todos os povos,
de todos os tempos.

Mulher da Vida,
Minha irmã.

Declarou-lhe Jesus: "Em verdade vos digo que publicanos 
e meretrizes vos precedem no Reino de Deus".
Evangelho de São Mateus, 21, vers. 31. 
Cora Coralina


2 comentários:

  1. Boa tarde, Maria Tereza.
    Não conhecia este poema de Cora, e gostei de ler.
    Muitas vezes nos pegamos julgando a vida dessas mulheres, mas nós não sabemos o que elas passam e o que as levou a tomar as decisões que tomaram...
    Abraços e boa semana!
    Ps: teu blog tá lindo!

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  2. Oi Ana, cheguei a trabalhar num grupo que acolhia mulheres em reabilitação, só quando você convive com pessoas em estado de transição é que você percebe a triste realidade delas. Julgar, só a Deus pertence esse direito, se não pudermos estender a mão, que a língua não nos morda, não é?
    Agradeço seu carinho, abraços afetuosos
    Maria Teresa

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