Com amor, todo sonho é possível

O espelho

A pequena Kimi era o retrato vivo, a miniatura de sua mãe Hideno.
Tinha o mesmo rosto comprido, a pele clara e a mesma fronte alta. Os cabelos, pre-azulados, eram igual e, os olhos oblíquos e cintilantes sob as pálpebras semi-abertas eram os mesmos.

Apesar dos vinte anos de diferença, podia-se pensar que elas eram irmãs gêmeas. E não se pareciam apenas fisicamente, pois gostavam das mesmas coisas. O afeto que as unia era tão grande que só se sentiam felizes quando estavam juntas.

Certo dia, Hideno ficou muito doente.

Sofria muito ao pensar que um dia deveria deixar o mundo de ternura que sua filha de 8 anos lhe proporcionava.

E, como sofreria a pobre Kimi! Hideno procurava encontrar um meio de atenuar essa dor tão atroz para sua filha.

Um dia, chamou a menina e disse-lhe:

- Talvez eu me vá logo para o país onde todos nos encontraremos um dia... Não chore, pequena Kimi ... Ouça-me com atenção porque tenho algo muito sério e confortante a lhe dizer... Quando eu não estiver mais a seu lado, estarei igualmente com você...

Hideno pegou uma grande caixa que seu marido lhe deixara e prosseguiu: 

- Pegue esta caixa... Não a abra enquanto eu estiver viva. Quando eu me for, você poderá abri-la, mas sempre em circunstâncias muito especiais. Por exemplo, quando você estiver triste ou alegre. Então meu rosto aparecerá no fundo da caixa, e você sentirá que eu estarei com você nos momentos de dor e nos momentos de felicidade...

Alguns dias depois, Hideno morreu.

Cheia de tristeza, a pobre Kimi abriu a caixa. E o que foi que viu? Sua mãe, sua querida mãe chorando com ela... ela estava lá, pronta a participar de seus sentimentos...

E, assim o tormento de Kimi se acalmou um pouco.

Desde então abria sempre a caixa para dividir suas maiores tristezas e alegrias com sua mãe. E Hideno participava de todos os seus momentos.


Quando completou dezesseis anos, Kimi foi chamada pelo avô materno que lhe disse conhecer um jovem bom e gentil. Gostaria muito que ela o esposasse. Ela imediatamente pensou mo quanto seria bom se ela tivesse filhos, talvez uma linda menina que seria para ela o que fora para sua mãe...

Abriu a caixa e contou para a mãe o seu segredo. E, Hideno, do fundo da caixa, sorria-lhe com ternura...

Mas foi então que Kimi percebeu que tudo não passara de uma ilusão, pois no fundo da caixa havia um espelho que refletia sua própria imagem. E ela pensara sempre que ali estava sua mãe.

 Esta revelação a teria arrasado alguns anos antes, mas agora não a perturbava.

Já não precisava do espelho para saber que sua mãe estaria sempre com ela, sofrendo com suas tristezas e alegrando-se com sua felicidade...

Do livro Fábulas e Lendas Japonesas - edição 1987
Tradução de Maria Luiza Cobra de Castilho

Abraços carinhosos

8 comentários:

  1. As nossas mães ficam sempre connosco e zelam por nós!
    Beijinhos, bom dia!

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    1. Acredito nisso, há um vínculo que não se rompe. Agradeço seu carinho, abraços afetuosos
      Maria Teresa

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  2. Que linda história!
    Enquanto ela precisou da presença da mãe, ela a viu dentro dos próprios olhos...

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    1. Linda mesmo Ana e, acredito também nisso, porque perder a mãe aos 8 anos é bem difícil, mas poder compartilhar dor e alegria, torna tudo mais fácil. Agradeço seu carinho, abraços carinhosos
      Maria Teresa

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  3. Desconhecia, mas adorei....

    bjxxx

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    1. Agradeço seu carinho, abraços afetuosos
      Maria Teresa

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  4. Olá Teresa! Quem sabe, a forma como a mãe falou, a reciprocidade de ternos sentimentos e a grande semelhança existente entre as duas, fê-la pensar que a imagem refletida no espelho era da sua querida mãe. Belo conto! Ótima escolha!

    Abraços,

    Furtado.

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    1. Oi Furtado, com certeza, a preocupação da mãe em conservar a imagem para a filha, também nos diz muito da cultura japonesa, que admiro muito, são resilientes às intempéries, mantém-se de pé como o bambu, nada os abala. Agradeço seu carinho, abraços afetuosos
      Maria Teresa

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