Com amor, todo sonho é possível

Tudo se repete - 26


"Quem não luta pelos seus direitos, não é digno deles."

Rui Barbosa

Este é o meu momento,
estou me desnudando do que era,
para assumir o que sou,
sem culpas, nem medos.
Maria Teresa



Hoje, 17/03/2015, agradeço e louvo a Deus, por ter-me poupado a vida, por me permitir estar aqui e, perceber as razões de minhas provas. Durante muito tempo, não aceitei ter sido aposentada tão cedo, mas hoje tenho certeza, Deus me poupou da morte certa, me dando a chance de uma nova vida.
Agradeço à Empresa em que eu trabalhava, que não me mandou embora e me possibilitou o tratamento;
Agradeço ao médico, Dr. M..., que me atendeu em janeiro de 1983, quando dei entrada na Santa Casa;
Agradeço ao médico da Empresa que me encaminhou para tratamento, em setembro de 1983, embora tenha me assustado, na ocasião, hoje reconheço que a ele, Dr. C..., devo minha vida;
Agradeço aos 3 médicos Dr. D..., Dr. S... e Dr. A..., bem como à psicóloga MA., que foram muito importantes na minha recuperação.
Que Deus, abençoe a todos esses maravilhosos profissionais.
Agradeço a todas as pessoas, que de alguma forma, ajudaram a me levantar, acreditaram e me estimularam a dar a volta por cima.
Não esqueço o nome de nenhum dos anjos que Deus colocou em meu caminho, não cito, por não saber se posso, mas agradeço ao Senhor, meu Deus, todos os dias, a cada um que me possibilitou estar hoje aqui.
Minha eterna gratidão, Maria Teresa

Hoje, 11/04/2013, me arrependo de ter sido tão covarde, me pouparia o sofrimento que toma conta de mim, pelo abandono e desprezo dos meus filhos. (11/04/1983) Foi a data, em que transcrevi as anotações do diário, para o rascunho do blog,  época em que estava entrando em nova crise depressiva, ao constatar o abandono e desprezo dos filhos.

06/09/1983

Fui internada hoje. Que horrível sensação, me vinha a todo momento as celas da prisão, as mãos estendidas gritando, berrando (cena que vivenciei, aos 5 anos, no Carandiru). Como foi duro me despedir, longe das crianças, mas eu preciso, eu sinto que preciso, antes que acabe cometendo alguma loucura, meu Deus ajuda-me , me dê um pouco de paz. Eles me aplicaram a injeção, meus olhos fechavam, mas eu não dormia, não parei de pensar um só instante, não aguento mais pensar em Empresa. Minha cabeça vai estourar, doe muito.

Senti uma enorme vontade de me dar ao xxx, acariciá-lo, dormir com ele e ele está tão longe, meu corpo está cheio de desejos.

Não posso falar que não dormi, senão vão me fazer coisas mais fortes.

No entanto, mais tarde, me trouxeram 5 comprimidos e eu estou tonta até hoje, sábado.

13/09/83
Tanta coisa aconteceu, conheci Dr. S..., parece uma pessoa muito humana. Logo após, me deram um comprimido que eu dormi até hoje. Não entendi nada, não sei porque ele me chamou.

Hoje o xxx veio, uma saudade e uma vontade de vê-lo longe, que dubiedade de pensar e agir, o que estará acontecendo comigo, ele vem e eu o mando embora, ele não vem e eu o desejo aqui.

Senhor dá-me sua paz, Senhor orienta-me em meu caminho.

Quantas vezes quero largar de suas Mãos Senhor e jogar-me no abismo, quantas vezes desejo desgarrar-me de seu rebanho e acabar de vez com minha vida.

Aprendi à tarde, com a C..., a tear um tapete, as horas passaram rápidas, não senti tantas tonturas.

É incrível, sinto um vazio das crianças, mas não quero vê-las mais, gostaria de sumir sem despedidas, ainda não sei como, mas sei que será a qualquer momento.

Eles estão me dando coisas bem fortes, dormi a manhã toda, me chamaram para a reunião e não era para eu ir, tentei fazer meu tapete e não consegui.

Dr. D... me chamou eu não falei das dores de cabeça constantes, das crises que me entortam toda, eles vão me enlouquecer mais ainda.

Dr. S... conversou comigo, ele me transmite paz.
A C... é uma meiguice.

Acabei de tomar o lanche, vem a solidão e uma enorme dor de cabeça, vai estourar.

Sonhei com muitos quadros e uma senhora que havia deixado uma fortuna enorme para mim, depois uma gata com muitos gatinhos e o dono só iria me dar se fosse fêmea e eu já tinha um branco na mão e eles comiam pintinhos de um dia. Saímos todos e ao parar para tomar soda eu notei que eles estavam com blusa de frio, mandei-os todos para casa. Nisso, vimos um monstro ferido e o pessoal com escavadeira tentando matá-lo. Estava o xxx, o nenê e eu e, dentro do caminhão havia um monstrinho pequeno, engraçadinho que eu mostrava ao DDD, em meio ao sangue e destroços do outro monstro. Não lembro de mais nada. 

Estou com tanto sono. 

Vou ver se começo a me desvincilhar de minha família, eles nem vão sentir a ida, como eu senti de minha mãe, eu sou um monstro e minha mãe era boa demais para viver neste mundo tão faminto de pessoas assim, para devorar, pisar massacrar.

Meu Deus, ajuda-me.

Perdoa-me, mas deixá-los passar necessidade, eu prefiro morrer.

Eu vi a cara de espanto do Dr. S... quando me perguntou o nº de filhos. É por essa razão, que Deus me deixou chegar onde cheguei. Agora, de qualquer forma, terão sua alimentação garantida. 

Não vou mais ouvir "Aqui não tem mais lugar para você."

Como se usassem e abusassem e depois o bagaço jogam fora, porque agora na Empresa, com tudo isso, não passo de um bagaço sem utilidade alguma.

Me sinto só, para que viver, não há razão para caminhar, onde está você, meu Senhor, que não o sinto; que me dá esta sensação de vazio, de inútil, de palhaço num palco sem espectador. Dá-me um sinal, dá-me um aviso, qualquer que seja.

Eu o amo muito Senhor, só o Senhor tem me dado forças, só que agora, foi-se todo o meu estoque, não há mais reservas.

Senhor ajudai o Don ele não está bom, Senhor ajudai-o, hoje ele jogou tudo nos bancos ele não está bom e eu gosto dele é um sofredor, Senhor ajudai-o, tem uma cabeça boa para os trabalhos, porque, Senhor, ele vegeta, eu só o vejo dopado é uma figura que está se esvaindo.

Lembra os hippies, que vagam pelas ruas da Índia, pelas valas imundas à procura da picada. 

Senhor ajudai-o.

Que mundo sujo, a que degradação a gente chega, eu não quero chegar a isso - Deus, leva-me antes, ou dá-me forças para fazê-lo.

16/09/83

Amanheci muito tonta, me confundiram com outra MT e, aí, aproveitei para continuar meu tapete. Não deu.

Tava que tava dormindo, a C... veio falar comigo, eu gosto de falar com ela, mas ela mandou a AS, não deu não, azedou e, para completar chegou meu marido.

Incrível como eu não queria vê-lo e outra força me fazia querer abraçá-lo, beijá-lo.

Eu gosto dele, ele é muito bonito e o vermelho fica bem nele, mas eu tenho medo, ele pode fazer de mim, o que já fez tantas vezes e, só eu sei como doeu.

Parece um amor forçado. Dá a impressão, que sua mãe sabe, que eu vou morrer logo e, por isso mandou ele vir comigo.

Minha cabeça parece uma bomba prestes a estourar, não dá para fazer qualquer movimento.

17/09/1983

Acordei em meio a um turbilhão, a clínica estava ruindo, que desespero eu não tinha mais saída.

A hora da visita me dá tanta agonia, todos têm com quem conversar, eu me sinto sozinha, mas ao mesmo tempo, todos me irritam, porque tenho que fingir uma relação que não dá.

Sinto falta das crianças, sinto falta do xxx, mas elas têm muito medo de mim, elas não agem normais, quando eu estou perto.

Hoje terminei o tapetinho, modéstia à parte, ficou tão bonitinho, nunca pensei ser capaz de tecer um tapete.

Mas, a morte me persegue, ontem conversei com o Don... e ele me falou que foi viciado, dá dó de olhar o desespero dele para se controlar, para não voltar ao vício. Dá acessos de violência e ele quer quebrar tudo.

Pensei em conseguir um pouco de droga ou talvez a bebida, ainda não sei como, a morte me persegue. A morte é um fio tão fininho, que a gente nem sequer sabe como está tão perto.

Deus, minha vida tem sido um pesadelo, leva-me de uma vez.

Estou gostando tanto da clínica, do pessoal, pela primeira vez, em minha vida, me sinto segura, ninguém pode me fazer mal, ninguém pode me magoar, não quero mais sair, tenho medo de pensar que um dia precisarei sair.

Não vou mais sair. Aqui é a família que nunca tive, que sempre esperei ter. Estou começando a mexer nas plantas, vou fazer cinto e tapete de cartelas de cigarros, porta-xaxim e tudo que a Cida me ensinar. Só sinto falta do DDD, como me faz falta o "mama", seu beijinho  e abraço tão gostosos.

17/09/1983

Nesta hora o DDD está acordado falando "mamã" - "dada" - "ichi", quanta saudade!!!

Minha cabeça já está cheia, tem uma senhora que fala muito no refeitório, falou, falou até dizer chega e da Cida, que eu gosto, foi dose dupla. Esse barulho de falar me irrita, me deprime - é como o caramujo que ao menor barulho se esconde em sua casinha. Eu não aguento ouvir falar e, principalmente, dos outros.

Minha cabeça já deu sinal, já voltou a doer, eu não aguento !!!

O xxx veio me visitar, estava tão bonito, não acredito que possa gostar de mim, me deu vontade de agarra-lo, beija-lo e dizer-lhe o quanto o amo, mas tenho medo, acho-me desarmada nas mãos dele.
Senhor, não sei mais como agir, o que fazer, acho que realmente estou ficando louca.
A dona da casa que havia alugado e precisei entregar, veio logo em seguida, falou tanta coisa que a minha cabeça está embaralhada, ela é muito boa, mas já tracei a minha meta, o sustento dos meus filhos, eu garanto a qualquer custo, muito embora eu gostasse de poder ficar com eles, mas este não é meu destino, não posso me apegar a nada que me faça titubear na hora.
Quando vem a tarde e, principalmente, à noite, tem sido um suplício, preciso ocupar a minha mente, preciso me ocupar de alguma coisa.
Agora chorando, sem saber bem porque.
Eu acredito que já estou louca - eles não falam nada, mas eu sinto, não aceito mais os outros. Tenho feito o possível para me entrosar, são todos da Empresa, com exceção de 2 ou 3, mas é difícil, gostaria de me isolar, não posso. Todo mundo dita ordens, tenho de obedecer.
Tenho medo enorme da sedação e eu sei que, se me pegarem chorando, eles vão me dar a tal "sossega leão", por isso procuro rir, agir como se tudo estivesse bem.
Oh! Deus, me ajude de alguma forma, que eu não precise do dinheiro da Empresa, para correr, brincar, abraçar meus filhos. Como eu preciso desse dinheiro, para que eles possam sobreviver. Se o xxx ganhasse melhor, mesmo assim, já não colabora, aí poderia me abandonar por outra e eu ficaria sem recursos, novamente, para criar meus filhos.
O jeito sou eu, eu preciso achar uma forma de criá-los. Tudo que já pensei, não dá o suficiente para mantê-los.
Senhor, não tenho outra saída é só esperar a alta para ir, pois na Empresa, não volto mais a por os pés.

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